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Opinião

Quem recebe o problema quando ele sai da minha equipa?

Lucas Atanazio · 13 de outubro de 2026
PEDIDO → PASSAGEM → RESPOSTA
Esquema conceptual da análise; não representa dados medidos.

A formação terminou. O participante sabe mais do que sabia quando chegou e quer experimentar o que aprendeu. A pessoa que o acompanhou indica outro contacto. Esse contacto pede um documento, que depende de uma terceira pessoa. A terceira responde que o assunto não é bem da sua área. Ninguém foi necessariamente indelicado. Todos fizeram uma parte. Ainda assim, a pessoa que precisava de avançar continua no mesmo lugar, agora com uma coleção de indicações.

Esta cena é hipotética. Serve para pensar a liderança de projetos em que várias equipas e instituições participam no mesmo percurso. Num modelo de desenvolvimento como o CAE proposto, a ligação entre aprendizagem, incubação, mercado e capacidade de entrega tem de ser mais do que uma sequência de nomes numa apresentação. Não estou a afirmar que essa rede esteja instalada num município. Estou a discutir a responsabilidade necessária para que uma proposta integrada se torne uma experiência coerente.

Encaminhar é o começo de uma passagem

Há uma diferença entre disponibilizar um contacto e assegurar uma passagem compreendida pelas duas partes. A primeira ação pode ser suficiente quando a pessoa procura apenas informação. Quando existe um compromisso de acompanhamento, a questão muda: quem recebe sabe o que está a receber? Conhece o pedido, os limites do que foi combinado e a razão pela qual a sua intervenção é necessária? Sem isso, cada etapa recomeça a conversa e pode alterar silenciosamente o destino.

A pessoa encaminhada também precisa de saber o que esperar. Pode estar a ser convidada para uma avaliação, e não a receber garantia de acesso a um serviço. Pode precisar de preparar informação antes do próximo contacto. Pode descobrir que a proposta inicial não responde à sua necessidade. Explicar estas possibilidades não diminui o valor do acompanhamento. Evita que a organização construa uma expectativa que a equipa seguinte terá de desfazer sozinha.

Quem coordena tem uma responsabilidade particular nestas fronteiras. Não pode transformar cada dificuldade num pedido para que todos comuniquem melhor. Comunicar o quê, entre quem e em que momento? Uma orientação genérica pode ser simpática e operacionalmente vazia. Se o mesmo problema se repete, é preciso observar a passagem concreta: a informação que ficou pelo caminho, a decisão que não tinha responsável ou o compromisso que foi assumido sem verificar capacidade.

A boa vontade não distribui autoridade

Em projetos partilhados, as pessoas podem querer ajudar e continuar sem poder decidir. Uma equipa pode disponibilizar tempo técnico sem poder comprometer recursos adicionais. Uma instituição pode participar numa conversa sem ter aprovado uma colaboração. Um profissional pode indicar possibilidades sem falar em nome da organização inteira. Estas diferenças precisam de ser reconhecidas, especialmente quando a ambição do projeto leva todos a falar depressa sobre o que seria desejável.

O entusiasmo tem valor. Ajuda a reunir pessoas e a abrir uma conversa que talvez não existisse. Mas não resolve quem responde quando os interesses divergem. Se uma atividade serve uma equipa e sobrecarrega outra, quem pode rever o desenho? Se o participante precisa de uma resposta que atravessa várias áreas, quem acompanha essa questão até haver uma conclusão? Um projeto integrado precisa de autoridade suficiente para tratar essas situações, com limites conhecidos por quem participa.

Não significa concentrar tudo numa pessoa. Isso pode apenas mudar o local onde o trabalho fica à espera. Significa reconhecer as decisões que exigem coordenação e dar-lhes um caminho praticável. As equipas devem conseguir resolver o que lhes compete e identificar o que depende de outra parte. Quando essa distinção existe, pedir ajuda deixa de parecer uma confissão de incompetência e passa a ser uma forma responsável de proteger o resultado comum.

O conflito deve chegar antes do abandono

Uma divergência entre equipas pode revelar que a proposta está a pedir duas coisas incompatíveis. Quem acompanha o participante quer rapidez; quem avalia uma condição precisa de informação; quem organiza a atividade tem capacidade limitada. A tentação é escolher um culpado para acabar com o desconforto. Prefiro perceber qual compromisso precisa de mudar. Pode haver um erro individual, mas também pode haver um desenho que transforma qualquer pessoa no próximo obstáculo.

Para distinguir essas situações, a conversa precisa de um caso concreto. Não basta dizer que determinada equipa nunca responde ou que outra pede sempre coisas impossíveis. O que foi pedido, em que condições, com que prazo e com que informação? O que estava confirmado? O que era apenas uma expectativa? Voltar a essas perguntas pode retirar dramatismo ao conflito e devolver-lhe utilidade. Deixa de ser uma disputa sobre intenções e passa a ser um trabalho sobre compromissos.

A forma como a liderança recebe a dificuldade determina quando a volta a conhecer. Se a pessoa que identifica uma falha recebe apenas irritação, pode aprender a comunicá-la mais tarde. Se encontra uma conversa firme, mas capaz de distinguir aviso e culpa, tem razões para a trazer cedo. O objetivo não é criar reuniões sem consequência. É fazer com que a informação chegue enquanto ainda existe espaço para escolher uma resposta melhor.

O percurso precisa de terminar com uma resposta

Nem todas as pessoas vão avançar por todas as etapas. Uma avaliação pode concluir que não existe enquadramento, que falta preparação ou que outra solução seria mais adequada. Um projeto sério precisa de conseguir comunicar esse desfecho sem deixar o participante indefinidamente à espera. A continuidade não se mede apenas pelo número de encaminhamentos. Também se mede pela capacidade de concluir uma conversa com clareza, respeito e informação útil.

Essa conclusão deve regressar à equipa que iniciou o acompanhamento, na medida adequada e sem circulação desnecessária de informação pessoal. Caso contrário, o projeto nunca aprende o que aconteceu às pessoas que encaminhou. Uma equipa celebra a atividade realizada, outra contabiliza os pedidos recebidos e ninguém conhece o intervalo entre as duas. Os indicadores podem crescer ao mesmo tempo que o participante perde confiança no percurso.

A pergunta que eu colocaria a uma equipa de coordenação é simples: mostrem-me uma passagem completa, do pedido inicial à resposta final. Não a apresentação ideal. Uma situação suficientemente clara para vermos onde houve entendimento, onde faltou capacidade e quem assumiu cada decisão. Antes de acrescentar outra atividade ao programa, vale a pena garantir que as atividades existentes conseguem receber o trabalho umas das outras. É nesse encontro entre pessoas que a integração deixa de ser uma intenção.