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Artigo de opinião

Passar uma responsabilidade exige dizer o que a outra pessoa pode deixar de fazer

Lucas Atanazio · 4 de novembro de 2026
RESPONSABILIDADE → PRIORIDADE → PASSAGEM
Esquema conceptual da análise; não representa dados medidos.

É possível entregar uma responsabilidade sem entregar as condições para a exercer. Uma pessoa recebe uma tarefa, uma chave de acesso ou o nome de um projeto, mas conserva tudo o que já tinha de fazer. A organização celebra a passagem e continua a pedir o trabalho anterior como se nada tivesse mudado. Mais tarde, quando surgem atrasos, procura um problema de empenho onde talvez exista uma decisão de capacidade que ninguém quis tornar explícita.

Uma passagem de responsabilidade tem uma dimensão que costuma aparecer pouco na conversa: aquilo que deixa de caber. Não me parece suficiente perguntar se a pessoa compreendeu o novo encargo. É preciso perguntar com que tempo, com que autoridade e à custa de que outras prioridades o vai assumir. Se essa escolha ficar por fazer, a empresa pode estar a transferir o peso de decidir sem transferir a legitimidade necessária para recusar pedidos.

A dificuldade aumenta quando a mudança é apresentada como reconhecimento. A pessoa pode sentir que levantar limites significa demonstrar pouca vontade ou pouca gratidão. A liderança precisa de criar espaço para discutir condições sem transformar a discussão numa avaliação de carácter. Aceitar uma responsabilidade não deve obrigar ninguém a fingir que a semana ganhou horas ou que as dependências antigas desapareceram. Reconhecimento e clareza podem, e devem, existir na mesma conversa.

O trabalho anterior não desaparece do mapa

Pensemos numa situação hipotética: uma técnica passa a coordenar uma pequena equipa e mantém os seus clientes, os mesmos prazos e a obrigação de resolver todos os pedidos especializados. O anúncio fala de coordenação. O calendário continua a mostrar a função anterior. Quando a equipa procura orientação, encontra uma pessoa dividida entre responder e proteger entregas pelas quais continua a ser cobrada. O título mudou antes de mudar a distribuição do trabalho.

A solução não será necessariamente retirar todos os clientes ou criar uma função inteiramente nova. Dependerá da organização e das suas possibilidades. Mas exige escolher o que se mantém, o que passa para outra pessoa, o que pode esperar e o que deixa de ser prometido. Essas escolhas precisam de ser comunicadas a quem faz pedidos. Um acordo reservado entre chefia e pessoa responsável perde força se o resto da organização continuar a trabalhar com expectativas antigas.

Há também responsabilidades que só parecem pequenas porque o trabalho de as sustentar fica escondido. Coordenar pode incluir preparar decisões, resolver dúvidas, acompanhar compromissos e fazer chegar informação a quem não esteve presente. Se a empresa contar apenas as reuniões, pode subestimar aquilo que acrescentou. Antes de concluir que a função cabe na agenda, convém observar o percurso real das decisões e não apenas a duração dos encontros em que elas são anunciadas.

A autoridade precisa de acompanhar o encargo

Outro ponto é a possibilidade de estabelecer prioridades. Quem responde pelo resultado precisa de saber que decisões pode tomar, que recursos pode mobilizar e quando deve pedir uma decisão superior. Não se trata de exigir liberdade sem limites. Trata-se de evitar uma posição em que a pessoa é responsável pelo atraso, mas não pode mudar o prazo, recusar uma entrada ou obter a informação necessária para executar o trabalho em tempo útil.

A passagem também deve esclarecer o papel de quem entregou a responsabilidade. Essa pessoa continua disponível para esclarecer contexto? Conserva algum poder de decisão? Pode dar instruções diretamente à equipa? Durante quanto tempo? Se estas perguntas ficarem sem resposta, a organização pode criar duas fontes de orientação. A equipa escolhe a que lhe parece mais acessível e o novo responsável descobre que recebeu o encargo sem receber a possibilidade de organizar o trabalho.

O período de transição não precisa de ser uma disputa de território. Pode ser um tempo de colaboração com limites claros. Quem sai ajuda a tornar o contexto compreensível; quem entra começa a exercer as decisões que lhe cabem; a liderança resolve as ambiguidades que não devem ser negociadas informalmente em cada pedido. A confiança na pessoa que assume cresce quando a organização demonstra, nos atos, que reconhece a mudança que acabou de anunciar.

Rever a passagem sem transformar tudo em prova pessoal

Convém combinar uma revisão depois de existir experiência suficiente para observar a nova distribuição. O objetivo não é perguntar apenas se a pessoa «deu conta». É verificar o que continuou a chegar pela função antiga, que decisões ficaram presas e que trabalho necessário não tinha sido considerado. A revisão pode revelar uma necessidade de aprendizagem. Também pode revelar um desenho de função impossível. São problemas diferentes e merecem respostas diferentes.

Por isso, eu teria cuidado com a palavra adaptação quando ela serve para encerrar qualquer objeção. A pessoa pode precisar de aprender a delegar ou de organizar melhor uma rotina. Mas também pode estar a receber duas funções incompatíveis. Sem olhar para pedidos, decisões, tempo e recursos, atribuir tudo à adaptação é escolher uma explicação antes de reunir informação suficiente. A liderança não fica dispensada de rever o arranjo por ter confiança em quem escolheu.

Uma passagem bem conduzida permite reconhecer o que começou e o que terminou. A pessoa sabe pelo que responde, a equipa sabe a quem recorrer e os restantes interlocutores entendem o que mudou nas prioridades. Há espaço para corrigir o desenho sem desautorizar quem assumiu. Dar responsabilidade é um ato importante de liderança. Sustentá-la inclui dizer, com a mesma clareza, que trabalho deixa de ser pedido, a quem passa e como se protege essa escolha quando chegam novas urgências.

Há um teste prático para esta clareza: observar o primeiro pedido incompatível com a nova prioridade. A pessoa pode explicar a escolha e encontrar apoio para a manter? Ou precisa de negociar sozinha uma exceção a cada contacto? A resposta mostra se a passagem foi reconhecida pela organização ou se continua a existir apenas na conversa em que foi anunciada.