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Artigo de opinião

Uma decisão justa precisa de sobreviver à troca de quem decide

Lucas Atanazio · 27 de outubro de 2026
FINALIDADE → CRITÉRIO → MEMÓRIA
Esquema conceptual da análise; não representa dados medidos.

A pessoa conhece o problema, apresenta o pedido e ouve que tudo depende de falar com alguém. Não necessariamente porque a regra seja complexa. Às vezes, a organização deixou que o critério ficasse guardado na memória, na sensibilidade ou na disponibilidade de uma única pessoa. Quando ela não está, a resposta muda ou o assunto espera.

Este é um problema de liderança antes de ser um problema de documentação. Uma instituição pode ter procedimentos escritos e continuar a depender de interpretações que ninguém consegue explicar. Também pode ter profissionais atentos que resolvem bem cada situação, mas não deixam aos colegas condições para manter uma resposta coerente. A boa intenção individual não basta para criar continuidade.

Defendo que uma decisão justa precisa de poder ser compreendida, examinada e, quando necessário, revista por outra pessoa responsável. Não significa que todos tenham de decidir da mesma maneira em qualquer circunstância. Significa que as diferenças precisam de estar ligadas a diferenças relevantes do caso, em vez de dependerem apenas de quem estava ao balcão, na reunião ou ao telefone.

O critério que só aparece depois

Pensemos num exemplo hipotético de uma associação que disponibiliza um espaço a projetos locais. Há procura e nem todos podem ocupar o mesmo horário. Um responsável dá prioridade a quem já utilizava o espaço; outro prefere iniciativas novas; um terceiro considera a dimensão do público. Cada critério pode ter uma razão. O problema é os candidatos só descobrirem qual conta depois de receberem a resposta.

Nessa situação, discutir apenas a decisão concreta pode ser insuficiente. É necessário tornar explícita a finalidade do recurso e a maneira de comparar pedidos. O espaço existe para garantir continuidade de atividades, apoiar projetos emergentes ou servir o maior número de pessoas? Pode haver uma combinação destes objetivos. Mas essa combinação tem de ser compreensível antes de se tornar uma justificação para qualquer resultado.

Uma regra útil começa por esclarecer o problema que procura resolver. Depois identifica as condições relevantes, os limites e a margem de apreciação. Se a regra é apresentada apenas como uma sequência de passos, pode ajudar a tratar um pedido e continuar sem explicar por que uma alternativa foi escolhida. O procedimento organiza o percurso. O critério permite avaliar a escolha.

Igualdade não é ignorar a situação

A objeção surge depressa: casos diferentes não podem receber respostas automáticas. Concordo. Uma organização precisa de reconhecer necessidades, urgências e circunstâncias que não cabem num formulário simples. Mas essa necessidade não justifica que a exceção fique sem explicação. Pelo contrário, torna mais importante dizer o que a distinguiu da regra habitual.

Quando uma diferença é relevante, deve ser possível descrevê-la sem expor informação que não precisa de circular. A equipa pode conhecer a categoria de motivo, a autoridade que decidiu e as condições aplicáveis. Nem todos precisam de ter acesso a todos os detalhes pessoais. A transparência de critério deve coexistir com a proteção da informação e com as responsabilidades próprias de cada função.

Também não se deve transformar o caso excecional numa promessa geral. Uma solução adequada a uma circunstância pode criar uma expectativa impossível de cumprir se for transmitida como uma nova regra. Quem comunica precisa de explicar o alcance da decisão sem humilhar a pessoa que pediu nem insinuar que recebeu um favor pessoal de quem resolveu.

Essa distinção é importante: a instituição presta um serviço ou exerce uma responsabilidade. Quando a resposta aparece como uma concessão individual, pode criar uma relação de gratidão ou dependência que não corresponde à finalidade da organização. A atenção humana deve melhorar o tratamento do caso, não substituir o critério por uma proximidade particular.

A memória não precisa de ser um arquivo impossível

Perante esta proposta, há quem imagine páginas de justificação para qualquer escolha. Não é isso que defendo. A documentação deve ser proporcional à consequência e à possibilidade de contestação. Uma decisão rotineira pode exigir apenas a identificação da regra aplicada. Uma exceção relevante pode precisar de uma nota curta com motivo, responsável e condições de revisão.

O essencial é que alguém consiga reconstruir o raciocínio sem pedir ao decisor que volte a estar presente. Que informação foi considerada? O que ficou por confirmar? Que alternativa foi afastada e porquê? Que facto novo poderia alterar a escolha? Estas perguntas ajudam a organizar uma memória útil, em vez de acumular documentos que ninguém consegue usar.

Há ainda um ganho interno. Quando os colegas compreendem a razão das decisões, conseguem preparar melhor os pedidos seguintes e reconhecer mais cedo situações semelhantes. A organização aprende. Se apenas recebe a instrução final, pode cumprir aquele caso e continuar dependente da próxima intervenção do mesmo responsável.

O registo também precisa de poder admitir erro. Uma justificação escrita não deve funcionar como um mecanismo para tornar uma decisão intocável. Pode revelar que faltava informação ou que um critério estava mal desenhado. A maturidade institucional está em conseguir corrigir isso sem apagar o percurso nem inventar uma coerência que não existiu.

O responsável continua a ser responsável

Explicar critérios não elimina a liderança. Há situações em que a informação é incompleta, os interesses são incompatíveis e a decisão não satisfaz todas as pessoas. Alguém precisa de escolher e assumir as consequências. O que muda é a possibilidade de essa escolha ser examinada pelo trabalho que fez, em vez de depender apenas da autoridade de quem a anunciou.

Também é legítimo existir margem de apreciação. Uma regra demasiado fechada pode produzir uma resposta inadequada a um caso que não foi previsto. Essa margem deve ter finalidade e limites reconhecíveis. Não é um espaço vazio onde qualquer preferência pessoal passa a ser aceitável. É uma responsabilidade acrescida de explicar a relação entre o caso e o objetivo da instituição.

Quando alguém muda de função, esse trabalho torna-se visível. O novo responsável não precisa de reproduzir todos os entendimentos anteriores. Precisa de conseguir perceber quais existiam, o que os sustentava e como pode revê-los. A mudança de liderança pode trazer melhoria sem transformar os utilizadores e as equipas em participantes involuntários de uma nova lotaria de respostas.

A confiança que não pede um contacto especial

Uma instituição forte permite que as pessoas apresentem um problema sem depender de conhecer a pessoa certa. Não promete resolver tudo nem responder sempre como o requerente deseja. Promete uma forma reconhecível de ouvir, comparar, decidir e rever. Essa previsibilidade dá conteúdo à relação entre a organização e quem precisa dela.

É nessa direção que situo a justiça prática da gestão. A qualidade de uma decisão não está apenas no resultado que parece razoável a quem a tomou. Está também na capacidade de explicar o caminho e permitir que outra pessoa responsável o compreenda. Quando o critério sobrevive à troca do decisor, a organização começa a ser maior do que a disponibilidade de cada indivíduo.

Um teste de continuidade

Uma equipa pode escolher uma decisão recente, retirar os nomes das pessoas envolvidas e pedir a outro responsável que a examine com a informação disponível. Consegue entender a finalidade, o critério e a razão da escolha? Identifica o que teria de confirmar antes de decidir? Se a explicação depende de uma conversa que nunca ficou registada, existe uma fragilidade a corrigir.

O exercício não deve servir para expor o colega que tomou a decisão. Serve para melhorar a qualidade da passagem entre pessoas e funções. A dificuldade pode estar no registo, na regra ou na informação recebida. Cada origem exige uma intervenção diferente. Repetir que todos precisam de ter mais cuidado não resolve uma condição que a própria organização deixou indefinida.

Também convém ouvir quem recebeu a resposta. Pode ter compreendido o resultado e continuar sem perceber a sua razão, ou ter entendido a razão e não saber como apresentar informação nova. Essas diferenças ajudam a melhorar a comunicação e os caminhos de revisão. A clareza interna precisa de chegar, de modo adequado, a quem está do outro lado.

Lucas Atanazio é empresário brasileiro residente em Portugal, fundador da ATNZO e autor de «O Maestro — A Arte da Negociação».