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Opinião

A equipa adotou IA. O que aprendeu a fazer melhor?

Lucas Atanazio · 12 de outubro de 2026
TAREFA → REVISÃO → APRENDIZAGEM
Esquema conceptual da análise; não representa dados medidos.

Uma equipa pode começar a usar inteligência artificial e produzir mais depressa os mesmos documentos. Isso é uma mudança observável no processo. A pergunta seguinte é se passou a compreender melhor o problema que esses documentos deveriam ajudar a resolver. Interessa-me essa diferença porque a velocidade de produção é visível muito cedo; a qualidade do julgamento exige observar o que as pessoas fazem com o resultado.

A Comissão Europeia publicou, em 9 de outubro de 2026, um painel trimestral dedicado à adoção de IA e à evolução do emprego em setores e profissões com elevada adoção, com comparações entre grupos etários. A caracterização da adoção assenta no inquérito AIM-WORK. [S1] É uma fonte para acompanhar tendências. Não demonstra, só por colocar variáveis lado a lado, que a IA causou uma determinada criação ou perda de empregos.

Essa cautela também é útil dentro das empresas. Se uma equipa entrega mais depois de receber uma ferramenta, vale a pena investigar o que mudou. Houve tarefas retiradas? Alterou-se a composição da equipa? Os casos eram comparáveis? A ferramenta pode ter contribuído, mas uma explicação séria precisa de reconhecer os outros elementos. A gestão não ganha muito ao substituir uma dúvida legítima por uma narrativa tecnológica conveniente.

A aprendizagem aparece quando o resultado precisa de ser defendido

Imaginemos uma equipa fictícia que prepara respostas a pedidos de clientes. Um sistema propõe textos claros em poucos segundos. A pessoa responsável deixa de começar numa página vazia e passa a rever uma proposta. Esse ganho pode ser útil. Mas a tarefa de revisão só existe de verdade se a pessoa conseguir reconhecer uma informação errada, uma promessa excessiva ou uma pergunta importante que ficou sem resposta.

Se apenas confirmar que o texto soa bem, a organização pode ter deslocado o esforço sem preservar a competência necessária. O problema não se resolve mandando desconfiar de tudo. Resolve-se ensinando o que verificar, em que fonte e com que critério. No exemplo hipotético, a revisão de uma condição de serviço exigiria consultar o registo autorizado dessa condição, não pedir ao mesmo sistema que confirme a própria formulação.

Eu começaria a formação por uma tarefa concreta e pelos erros que importam nessa tarefa. Uma equipa que organiza informação interna tem necessidades diferentes de outra que responde publicamente em nome da empresa. Não faz sentido avaliar ambas apenas pelo número de instruções que aprenderam a escrever. O que interessa é a capacidade de obter um resultado adequado, identificar os seus limites e reconhecer quando o caso exige outra pessoa.

Há um cuidado particular com quem está a aprender uma profissão. Algumas tarefas iniciais podem ser repetitivas, mas também podem ajudar a perceber como a informação se organiza e onde surgem erros. Automatizá-las exige pensar em como essa aprendizagem continuará a acontecer. Não defendo conservar trabalho sem utilidade apenas por tradição. Defendo que a organização identifique a competência que pretende desenvolver antes de retirar o percurso através do qual ela era adquirida.

Poupar tempo não decide o destino desse tempo

Um tempo de execução mais curto abre possibilidades. Pode permitir responder melhor, rever casos difíceis ou reduzir trabalho acumulado. Também pode ser inteiramente absorvido por novas tarefas. Essa escolha pertence à gestão e deve ser discutida como tal. A ferramenta não determina automaticamente se a pessoa terá condições para aprofundar o trabalho ou apenas receberá uma quantidade maior de pedidos semelhantes.

É por isso que prefiro acompanhar o percurso completo. Quanto tempo levou a preparação? Que revisão foi necessária? Houve correções depois da entrega? Quem assumiu esse trabalho? Se a primeira fase fica mais rápida e o esforço reaparece noutra equipa, o ganho precisa de ser compreendido nessa dimensão. Ignorar a revisão pode premiar uma área por transferir dificuldades para outra, sem melhorar o resultado que chega ao destinatário.

O acompanhamento deve ser proporcional ao uso. Uma pequena experiência interna não precisa de nascer com uma estrutura impossível de manter. Pode começar com casos comparáveis, critérios claros e um período definido. Convém guardar também exemplos em que a ferramenta não ajudou. Eles permitem delimitar o uso e orientar a aprendizagem, em vez de alimentar uma apresentação composta apenas por demonstrações escolhidas por correrem bem.

A voz de quem executa a tarefa é essencial. A pessoa pode reconhecer uma dificuldade que não aparece nas métricas escolhidas pela direção: um resultado plausível que demora a verificar, uma mudança de contexto que o sistema perde ou uma resposta que exige conhecimento informal. Escutar esses elementos não significa aceitar qualquer rejeição da ferramenta. Significa transformar a experiência em questões que possam ser examinadas.

A responsabilidade precisa de permanecer legível

Quando há uma falha, é pouco útil terminar a análise dizendo que foi a IA. Importa saber qual era a tarefa autorizada, que informação estava disponível, que revisão se esperava e o que aconteceu na passagem para a execução. A responsabilidade deve acompanhar as decisões humanas sobre o processo, sem fingir que cada utilizador controla sozinho o comportamento de todo o sistema.

Também convém reconhecer a diferença entre uma pessoa que segue um procedimento insuficiente e outra que ignora deliberadamente uma verificação necessária. Tratar os dois casos da mesma forma pode impedir a aprendizagem organizacional. A resposta deve considerar o desenho do trabalho, a preparação oferecida e a decisão concreta. Só assim a análise de uma falha pode produzir uma melhoria que outra pessoa consiga efetivamente aplicar.

Para mim, uma equipa mais capaz não é apenas aquela que entrega depressa. É aquela que consegue explicar por que confia num resultado, onde permanece uma incerteza e o que faria perante uma situação diferente. Essa capacidade pode ser apoiada por tecnologia, formação e revisão entre colegas. Precisa, sobretudo, de um ambiente em que admitir uma dúvida seja compatível com ser considerado competente.

Os dados sobre emprego e adoção ajudam a acompanhar uma transformação ampla. Dentro da organização, a liderança tem um trabalho mais próximo: escolher tarefas, preparar pessoas, verificar resultados e decidir o que deve continuar. A Inteligência Resolutiva interessa-me precisamente aí. Na capacidade de aproveitar uma ferramenta sem abandonar a pergunta sobre o problema, a pessoa afetada e a responsabilidade por aquilo que se entrega.

Fontes de enquadramento

  1. Comissão Europeia — European Employment and Social Outlook Dashboard · 2026-10-09