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A cidade que forma talentos e manda todos embora

Uma cidade pode ter a melhor escola da região e continuar perdendo tudo o que ela produz. O problema não é falta de talento. É falta de caminho entre o diploma e a primeira empresa.

Lucas Atanazio Vetorasso · Edição de 26 de setembro de 2026
Lucas Atanazio Vetorasso, retrato de estúdio do press kit.
Lucas Atanazio Vetorasso, O Maestro. Retrato do press kit de 17 de setembro de 2026. Sem local, data ou evento atribuídos.

Tem uma cena que se repete em muita cidade, lá e cá, e quase ninguém fotografa. O jovem termina o curso, a família faz o almoço de domingo, o tio pergunta o que vem agora, e a resposta já chega com a mala pronta. Capital. Cidade grande. Às vezes, outro país. A mãe fica orgulhosa e triste na mesma frase.

E a cidade? A cidade pagou a escola, o ônibus, a quadra, o professor de Matemática que ficava depois do horário. Investiu vinte anos naquela pessoa. E no dia em que ela finalmente está pronta para devolver alguma coisa, vai devolver para outro lugar.

Então eu pergunto, e peço que você não responda rápido: quantos jovens uma cidade forma para depois entregar a outros lugares?

Vamos lá. A resposta fácil é dizer que falta emprego. É verdade, mas é meia verdade. Falta emprego, sim. Mas falta, principalmente, caminho. Um jovem de vinte e poucos anos não vai embora só porque não achou vaga. Vai porque não vê ninguém parecido com ele construindo alguma coisa ali. Vai porque, na terra dele, empreender parece coisa de quem já tem dinheiro, sobrenome ou padrinho. E quando o exemplo não existe, a mala é a decisão mais racional do mundo.

Gente é assim. Ninguém fica num lugar por causa de folheto. Fica porque consegue imaginar a própria vida ali, com começo, meio e alguma coisa para mostrar aos amigos que foram embora.

O erro de medir a inauguração

Durante muito tempo, e não só em Portugal, onde tenho hoje a minha base, desenvolvimento local foi medido pela inauguração. Chega o investidor, corta a fita, tira a foto, fala em vagas de trabalho. Não tenho nada contra fita. Mas já vi negócio suficiente para saber uma coisa: a inauguração é o começo da auditoria, não a prova do sucesso.

Imagine a conversa um ano depois.

— Secretário, a loja continua aberta?
— Continua.
— E quem trabalha lá?
— Gente de fora, principalmente. O pessoal daqui não tinha formação para aquilo.
— E quem compra dos produtores da cidade?
— Bom… isso quem resolve é a central.

Pois é. A foto continua bonita na parede da prefeitura. Mas o que ficou no território foi um aluguel e meia dúzia de contratos. A decisão, o conhecimento e a margem foram morar em outro lugar.

Não estou dizendo que investimento de fora não presta. Presta, e muito. Estou dizendo que a cidade que só sabe receber acaba sempre dependendo de quem dá.

Escrevi há alguns anos que é importante saber a diferença entre empresas crescendo e empresas inchando. Com cidade é a mesma coisa. Uma cidade incha quando soma metro quadrado, rotatória e anúncio sem somar capacidade. Cresce quando cada investimento deixa para trás alguém que sabe fazer uma coisa que antes não sabia. A primeira é mais rápida e rende foto melhor. A segunda é a única que aguenta quando o investidor muda de ideia. E investidor muda de ideia, meu amigo. É o trabalho dele.

A receita e o confeiteiro

Passei boa parte da vida transformando negócios que funcionavam em modelos que podiam ser ensinados a outras pessoas. Isso tem nome técnico, franchising, e muita gente torce o nariz quando ouve a palavra. Pensa em shopping, em logotipo, em taxa de franquia. Entendo. Mas deixa eu mostrar o que tem embaixo.

Um negócio replicável é um negócio que alguém se deu ao trabalho de escrever. Como abre, como compra, como atende, como treina a pessoa nova, como fecha o caixa, o que fazer quando dá errado. Escrevi uma vez que a mão do confeiteiro muda, mas a receita base, a essência, deve ser respeitada. Continuo achando a mesma coisa. E acrescento: quem tem a receita não precisa ser gênio para fazer um bom bolo. Precisa de disciplina, de alguém que acompanhe no começo e de coragem para colocar o avental.

Agora olha para aquele jovem da mala pronta. O que assusta ele em empreender? Não é trabalhar muito, porque essa geração trabalha, digam o que disserem. É não saber por onde começar. É ter que inventar tudo sozinho, errar com o próprio dinheiro e, pior, com o dinheiro dos pais. Um modelo replicável tira exatamente esse peso. Ele não tem que inventar a empresa. Tem que operar bem. E operar bem se aprende.

Na vida real, é assim que se formam empresários. Primeiro você opera o modelo de alguém. Depois entende por que ele funciona. Um dia cria o seu.

Cada terra tem a sua receita

Não existe solução para o país inteiro, e desconfie de quem vender uma. Em Portugal, onde esse debate está na mesa agora, Barcelos não é Boticas e Famalicão não é Mogadouro. Uma cidade com densidade industrial, muitas pequenas e médias empresas e formação aplicada tem uma pergunta. Um território de montanha, com uma identidade como a do Barroso e produtos como a Carne Barrosã, tem outra, e a primeira obrigação é não estragar o que já tem valor. Uma cidade de baixa densidade, com produtor espalhado, precisa de serviço compartilhado, de gente que ganhe escala sem ter que ir embora.

O trabalho sério começa aí: ler o território antes de propor uma receita. Com dado público, com a equipe da prefeitura, com os empresários que já estão lá e que, muitas vezes, ninguém ouviu. E com uma pergunta simples em cima da mesa: o que pode nascer aqui, ser escrito aqui e crescer daqui para fora?

E, aliás, ouvir antes de propor não é gentileza. É método. Quem chega numa cidade com a solução pronta normalmente trouxe de outra cidade, onde também não serviu.

O momento é agora, mas não é mágico

Em Portugal, o ciclo Portugal 2030 abre uma nova rodada de instrumentos para empreendedorismo, emprego e inovação territorial. No Brasil, cada tanto aparece um programa com outro nome e a mesma promessa. É uma janela, e janela fecha. Mas cuidado com a tentação de sempre: desenhar o projeto para caber no edital, em vez de usar o edital para servir o projeto. Dinheiro público mal aplicado não é só desperdício. É uma lição errada que se ensina a uma geração inteira: a de que empreender é saber preencher formulário. Entenda: não sou contra os fundos. Sou contra projeto que só existe enquanto tem fundo.

O que eu defendo é menos glamouroso. Bases territoriais onde o jovem encontre três coisas no mesmo lugar: um modelo de negócio que já provou que funciona, formação de verdade para operar esse modelo e alguém responsável por acompanhar os primeiros meses. Onde o produtor local encontre um cliente que compra com regularidade. E onde a prefeitura consiga medir, um ano depois, não quantas fitas cortou, mas quantas empresas continuam abertas e quantos jovens deixaram de fazer a mala.

Voltando ao almoço de domingo

Volto àquele almoço de família. Não tenho a ilusão de que todo jovem deva ficar. Sair também forma, e muitos voltam melhores. O problema não é quem sai. É quem sai porque não teve escolha.

É necessário fazer o básico para chegar ao grandioso. E o básico, aqui, é pouco fotogênico: dado, formação, processo e um nome responsável por cada peça. Não dá manchete. Mas é o que faz com que, daqui a dez anos, o tio pergunte o que vem agora e o sobrinho responda: vou ficar, tenho uma empresa para abrir.

Toda prefeitura sabe quantos alunos formou este ano. A pergunta que eu deixo é outra, e é mais desconfortável: quantos deles vão poder construir a vida aqui?

Lucas Atanazio Vetorasso, O Maestro, é empresário, escritor e fundador da ATNZO. Seu trabalho liga franchising, gestão, negociação, comportamento humano e desenvolvimento territorial.

Fontes e documentação

  1. Press kit público · Lucas Atanazio Vetorasso — Biografias, fotos e contatos para imprensa
  2. Lucas Atanazio · O Maestro · Press kit
  3. 15 pautas · Lucas Atanazio